Aurora Negra

De Cleo Diára, Isabél Zuaa e Nádia Yracema

Data Hora
Sex 22 Out 21:30
Público
M/12
Duração
90 min. (sem intervalo)

Aurora Negra

De Cleo Diára, Isabél Zuaa e Nádia Yracema

O canto começa na voz de uma mulher que fala. Fala crioulo. Fala tchokwe. Fala português.

Em cena três corpos, três mulheres na condição de estrangeiras onde são faladas essas três línguas. Em cada mulher uma essência, personalidade e trajetória que se cruzam com a certeza de que nada voltará a ser igual.

Nesta Aurora Negra, buscamos as raízes mais profundas e originais dessas culturas celebrando o seu legado e projetando um caminho onde nos afirmamos como protagonistas das nossas histórias.

 

Aurora Negra conta, na primeira pessoa do plural, as memórias de mulheres negras no Portugal pós-colonial e por descolonizar. Três atrizes — Cleo Tavares, Isabél Zuaa, Nádia Yracema — desfolham um arquivo diaspórico e intersecional, com nomes de vivos e mortos, com línguas e lugares múltiplos, músicas do despontar da nossa juventude, numa celebração da jornada e subjetividade coletiva de uma geração afroportuguesa contemporânea. Desse arquivo, aberto em 6 cenas, o tempo biográfico e a história da diáspora confluem; misturam-se os corpos e vozes das personagens com fragmentos sonoros e audiovisuais que reconstroem um imaginário negro daqui e do mundo.
O humor é omnipresente, em jeito de sátira, prenhe de ironia e, sobretudo, da alegria de se estar e ser na sua própria pele. Não um objeto, mas protagonistas da sua própria história. “Meu corpo eu te autorizo a ocupar qualquer lugar”. Aurora Negra faz e é em si um statement, uma busca pelo rompimento das malhas da invisibilidade, do estereótipo e do tokenismo racial nas artes performativas, do palco, ao elenco e às opções técnicas de bastidores.

O espetáculo venceu a segunda edição da Bolsa Amélia Rey Colaço e, pela primeira vez, sobe ao palco no Teatro Nacional D. Maria II uma peça criada e protagonizada por mulheres negras, portuguesas de ancestralidade africana. 2020.Estreia-se na “casa” da única monarca europeia que nasceu numa colónia, no Brasil de 1819, no auge e no centro do tráfico transatlântico de pessoas escravizadas. Dona Maria da Glória, “bu ata obinu?”
Nasce no ano da morte de Bruno Candé, ator negro português, assassinado às mãos do racismo português. Os Griot e atores negros da Afrolisboa cantam “o outro homem matou o homem” e no palco grita-se “a casa também é nossa”. Black out. Black in. Há um porvir que amanhece, um Portugal negro que toma a boca de cena.

Cristina Roldão