Deus da Carnificina

Data Hora
Qui 25 Out 21:30
Público
M/12

Deus da Carnificina

Dois casais, adultos e aparentemente civilizados, encontram-se para resolver um incidente protagonizado pelos seus filhos menores. O que é verdadeiramente sedutor neste confronto é a progressão paradoxal do encontro dos casais. Há uma certa sofisticação na forma como o encontro decorre na tentativa de apurar responsabilidades na luta física que ocorreu entre os respetivos filhos, dois jovens de 11 anos. O que acontece na realidade é a queda progressiva das máscaras a que nos obrigamos no ato social e um estalar do verniz, que deixa a nu a natureza violenta dos relacionamentos humanos. As conversas entre os quatro são constantemente interrompidas pelo telemóvel de Alan, advogado de uma multinacional farmacêutica, acusada de vender medicamentos para cardíacos que produz efeitos colaterais. A sua mulher Nancy, é uma mulher com ambições socias e com uma curta tolerância ao álcool. Penélope, é uma dona de casa, vagamente interessada em arte africana e o seu marido Michael é um vendedor de eletrodomésticos. Nada é claro ou linear. Ninguém é normal. As primeiras impressões vão-se contradizendo, negando-se, alterando-se em contacto com as outras. Pouco a pouco vamos sendo levados para o núcleo da nossa natureza primordial, selvagem e violenta. Todos são capazes de pensamentos politicamente corretos, mas também se mostram capazes de usar golpes baixos e letais, quando se trata de defender o interesse próprio ou dos filhos. O tema da peça é,
necessariamente, a “Hipocrisia”, ou se preferirmos, a dupla moral e de como perspetivas éticas se mostram flexíveis para defenderem certos interesses. O que é curioso é que toda esta dimensão ética e politica é colocada neste texto em termos profundamente cómicos. “Deus da Carnificina” é por isso uma comédia, mesmo que o riso tenha como fronteira a dor que sempre sentimos, quando constatamos a nossa fragilidade humana.

“O Deus da Carnificina” é uma tragédia cómica ou uma comédia trágica se preferirem, onde a natureza humana e toda a sua evolução social, intelectual e psicológica se desmorona quando impulsos primários e básicos são despoletados por uma discussão parental. Nada nos tira do sério ou potencia o nosso lado animalesco e protetor como uma investida contra os nossos filhos.
Este espectáculo constitui uma oportunidade para explorar vários registos de comédia negra onde o sarcasmo, a ironia e o cinismo, são instrumentos a que o texto recorre e que os atores naturalmente integram no jogo e que, no combate que se adivinha, provocam risos. Alguns são risos nervosos, descontrolado por vezes, como quem assiste a um funeral e se ri perante uma situação trágica, mas que aos nossos olhos resulta, involuntariamente, caricata, ridícula até.
Quando olhamos ao espelho, por vezes, o nosso reflexo é adulterado pelo nosso cérebro, de modo a que a perceção dos nossos receios mais profundos, seja suavizada, como que nos preparando para uma realidade não desejada. “O Deus da Carnificina” tem esse mesmo efeito em nós. No fundo desejamos não ser nenhuma das personagens aqui retratadas, mas não nos conseguimos impedir de identificar determinados comportamentos, que embora condenemos nos são demasiadamente familiares.
Diogo Infante