Cavalleria Rusticana

Data Hora
Sáb 03 Set 21:30
Preço 12,50 euros c/ desconto
Público
M/6

Cavalleria Rusticana

Cavalleria Rusticana – um marco do realismo
Cavalleria Rusticana é um marco importante na dinâmica estética italiana. Até à sua estreia o verismo, ou realismo italiano, apesar de ter entrado na literatura e poesia, ainda não tinha feito a sua incursão na ópera.
A ópera italiana em 1890, data da estreia de Cavalleira Rusticana, era uma forma de arte popular, muito apegada à tradição em todas as suas vertentes, nomeadamente nas convenções do canto e nas referências literárias.
Com Cavalleria Rusticana que não belisca a tradição do canto, antes pelo contrário, temos uma evolução estética. É das primeiras obras em que os temas deixam de ser históricos ou trágicos, no sentido romântico ou clássico do termo, e mostram o cidadão comum na sua vida e nas suas pequenas e grandes tragédias.
A génese desta ópera começa em 1888 com Edoardo Zonzogno, um editor musical de Milão, a anunciar um concurso de óperas para jovens compositores que nunca tivessem estreado, até então, uma ópera. A obra vendecedora seria estreada em Roma.
Pietro Mascagni, nascido em 1863 em Livorno na Toscânia, soube do concurso faltavam dois meses para final do prazo de entrega.
Pediu ao poeta Giovanni Targioni-Tozzetti, também de Livorno, para escrever o libreto. O libretista seleccionou um conto de Giovanni Verga, um conto realista, para base da história. O poema foi sendo escrito por Targioni Tozzetti e Guido Menasci em fragmentos ao mesmo tempo que Mascagni ia escrevendo a música.
A ópera foi entregue no último dia do prazo e acabou seleccionada para a final em Roma, sendo apresentada num teatro Costanzi a meia casa. A estreia foi apoteótica, apesar do pouco público, que se rendeu de forma calorosa à ópera desde os primeiros compassos.
O jovem compositor, escolhendo um tema de amor e ciúme numa pequena povoação da Sicília, entrou pela porta grande da ópera italiana ajudando a firmar o verismo na arte lírica.
Os ingredientes para esta inovação foram uma melodia e um celebrar do canto que não negam a tradição, extremamente bem estabelecida, do canto italiano fazendo de Mascagni um compositor famoso, mas que nunca repetiu o sucesso desta Cavalleria Rusticana mal-grado ter composto quinze óperas e uma opereta. Quando morreu, em 1945, a ópera tinha sido representada mais de uma dezena de milhar de vezes na Itália e muitas outras por todo o Mundo.
A instrumentação é feita para uma orquestra não muito grande com madeiras a dois, trompetes a dois, quatro trompas, três trombones e tuba, percussão e ainda harpa e órgão.
Mascagni combina na ópera lirismo e dramatismo e mostra um elevado sentido dramático e da pintura das emoções através da música, o que torna a ópera muito apelativa ao público em geral. A sua inspiração mediterrânica, o ciúme e a violência com que se lavava a honra ofendida, neste caso o “cavalheirismo rústico” que hoje em dia é um anacronismo nas grandes cidades, mas que ainda se sente nos pequenos meios rurais em memórias muito frescas, dizem muito ao público do Sul da Europa. Tem sido feita uma leitura crítica da ópera de Mascagni em encenações recentes que questionam a “ética rústica” mostrada de forma realista na ópera. Já na altura da estreia, em 1890, esta obra era também, senão uma crítica, pelo menos uma exibição pública da violência que ainda presidia à lavagem das violações da honra nas zonais rurais e, em particular, na Sicília, onde ainda hoje essa violência se sente de forma pesada na cultura tradicional.

Mascagni abriu os teatros de ópera italiana à vida real, hoje vamos presenciar essa mesma vida real na Aula Magna, retomando a Universidade de Lisboa, depois de um longo período de quase encerramento das actividades culturais presenciais, também ele pesado e triste, uma programação cultural que se pretende continuada, rica e sem mais interrupções motivadas pelas tragédias humanas que a pandemia trouxe.
Henrique Oliveira – Programador da Temporada de Música, escreve de acordo com a ortografia anterior ao acordo de 1990.