Best of Curtas Vila do Conde

Data Hora
Qua 09 Dez 18:30
Realizador
Vários
Público
M/12
Duração
77 min.
Género
Curtas metragens

Best of Curtas Vila do Conde

Seleção das melhores curtas-metragens que passaram no 28º festival internacional de cinema de Vila do Conde.

ELO
PRÉMIO ANIMAÇÃO (Alexandra Ramires, Portugal·França, 2020, ANI , 11’
Uma certa noite, o encontro entre um homem com uma cabeça pequena num corpo grande e uma mulher com uma cabeça grande num corpo pequeno ajuda-os a vencer os medos e a aceitar os seus “defeitos” como sensibilidades singulares. Depois da promissora estreia no Curtas com “Água Mole” (2017), corealizado com Laura Gonçalves, Alexandra Ramires (Xá) volta a Vila do Conde com “Elo”, uma viagem melancólica e poética sobre o medo e a descoberta que conta com a parceria criativa de Regina Guimarães no argumento. Sem diálogos, a narrativa constrói-se sobretudo com os elementos visuais palpitantes e vibrantes da gravura animada de Alexandra Ramires e com as ambiências sonoras imersivas e emotivas de Nicolas Tricot (música) e Jérôme Petit (desenho de som), que criam uma obra tão simples quanto sensível e humana, uma verdadeira ode à solidariedade e à tolerância. (Paulo Cunha)

HIDDEN (ESCONDIDA)
PRÉMIO DOCUMENTÁRIO
Jafar Panahi, França·Irão, 2020, DOC, 19’
Jafar Panahi, um dos mais importantes realizadores iranianos e do cinema independente mundial, foi preso em março de 2010, juntamente com a mulher e filha, por ofensas ao estado iraniano, tendo sido condenado a seis anos de prisão domiciliária e à proibição de filmar durante 20 anos. Porém, o inventivo realizador tem encontrado formas de continuar a produzir, reinventado o seu cinema e adaptando-se a essa condição. A sua longa mais recente, “Três Rostos”, tomava a forma de um “road movie” e contava a história da procura por uma jovem atriz forçada a esconder-se, e a sua ocupação, da sua família conservadora. Com “Hidden”, Panahi volta a percorrer caminhos parecidos, quando parte, acompanhado da filha, para um encontro com uma rapariga da qual lhe chegam notícias que possui uma belíssima voz, mas que por causa de restrições familiares e religiosas mantém-se reclusa em casa e esconde o seu talento. Panahi filma essa rapariga – ou melhor, a sua voz – num gesto emocional e poderoso, para não deixar cair no esquecimento nem esta rapariga nem outros com destinos semelhantes, para recordar, na figura dela e da sua história, outras vozes forçadas
ao silêncio. É o cinema como uma arma contra o esquecimento, como resguardo do que é belo e invisível, contra o tempo. (João Araújo)

DUSTIN
PRÉMIO FICÇÃO
Naïla Guiguet, França, 2020, FIC, 20’
Esta é a estreia no Curtas de Naila Guiguet, recémformada realizadora francesa que apresenta no festival a sua primeira curta-metragem, “Dustin”. Guiguet partiu para a rodagem do seu primeiro filme profissional utilizando como principal cenário eventos que organiza para a comunidade LGBTQIA+ enquanto DJ e membro fundador do grupo Collective Possession. Com a introdução singular no argumento do ambiente sonoro alucinante da música techno, a realizadora convida o espectador a partilhar o clima de alheamento e introspeção das personagens que constroem esta narrativa, e o seu relacionamento. Sublinha-se a sensibilidade discursiva com que Guiguet nos torna conscientes da presença e estética do corpo da personagem principal em contraste com o seu grupo, e com uma multidão de gente subtilmente iluminada nos enquadramentos iniciais. Através de Dustin, na representação da personagem transgénera e homossexual que dá o título ao filme, e do seu grupo de amigos, presenciamos o estado de deriva emocional e melancolia consequentes de uma rave. Esta curta-metragem destaca-se pela forma atual e poética com que faz o retrato da realidade noturna alternativa, bem como pela naturalidade com que representa o processo de aculturação e socialização da comunidade retratada. (Bárbara do Carmo)

THE PHYSICS OF SORROW (ANATOMIA DA TRISTEZA)
PRÉMIO DO PÚBLICO DA COMPETIÇÃO INTERNACIONAL
Theodore Ushev, Canadá, 2019, ANI, 27’

Animador prolífico e genial, e uma presença habitual na programação do Curtas desde 2006, com nove dos seus trabalhos exibidos, Theodore Ushev presenteia-nos este ano com um filme inspirado no livro com o mesmo título, “The physics of sorrow” de Georgi Gospodinov, o mesmo autor que inspirou a sua obra anterior “Blind Vaysha”, exibido também em Vila do Conde. Através de pintura encáustica animada, uma técnica nunca utilizada em cinema, que mistura cera de abelhas e pigmentos, usada no antigo Egipto para retratar os seus mortos mais notáveis, Ushev oferece-nos o seu próprio labirinto existencial – assumindo-se, ele também, como uma versão do próprio Gospodinov – numa incursão cativante e pessoal sobre a tristeza, a perda e o abandono. Num turbilhão de memórias, arquivos, coleções, autorreflexões, experiências e emoções, “A anatomia da tristeza” mostra-nos, através de um poderoso traço expressionista, que todos os seres humanos são um repositório potencialmente ilimitado de experiências vividas, um arquivo universal dos sentidos e da história, uma cápsula do tempo de resíduos desordenados do passado e recontextualizações inesperadas e desorientadoras, em direção a algum núcleo de verdade. Porque, como diz o narrador do filme, “nada é tão estéril quanto o esquecimento”. (Salette Ramalho)